quiz · tentante · vovó

18/30 – Foi duro

O desafio de hoje era contar qual foi a experiência mais difícil pela qual eu passei.

Obviamente já passei por várias situações complicadas, mas sem dúvida, a doença e morte da minha avó materna foi a mais difícil situação.

Ela sempre foi saudável, comia tudo certinho até por conta de seu colesterol e pressão altos. Quase nunca comia ovo frito (que ela adorava) e sempre me oferecia um suco quando eu pedia coca…. Aí um dia ela sentiu uma dor no lado esquerdo. Na hora pensou em pedra na vesícula, já que a prima havia acabado de tirar uma e a mãe também tinha tido. Foi ao médico, acharam a tal pedra. Ela ficou de retornar com os exames pré-operatórios. Aí surgiu uma flebite – uma inflamação das veias das pernas dela. Ela achou estranho, mas preferiu esperar que aquele mês – julho 2004 – com feriados longos passasse logo para ela ir ao médico. Foi ao Hospital São Luiz e fizeram um ultrassom. Pera, cadê a pedra da vesícula? Sabemos que isso não some assim tão fácil e a tal flebite irritando e incapacitando minha avó de ir às suas aulas de ginástica.

O tempo foi passando, os médicos sempre dando aquelas desculpas estranhas e os exames acusando cada vez mais coisas estranhas e ninguém falava nada. E ela, ia definhando.

Os exames sendo feitos, biópsias, ressonâncias, tomografias, sangue e mais sangue. Até que pediram um exame de marcador tumoral. E, se o limite era 100, o da minha avó havia dado 1.000.000. O choque se instalou e eu, que sempre fui MUITO apegada a ela, me senti sem chão, sem rumo, sem vó.

O tempo foi passando e a cada dia era uma novidade triste a mais. As suspeitas eram de câncer. Essa palavra sempre me assombrou e eu sempre tive medo do que estava acontecendo – que minha avó morresse jovem.

Exames e mais exames. Ela deitando na cama, emagrecendo, fazendo piadas. Contrataram uma enfermeira 24hs para cuidar dela e eu ia todos os dias na sua casa que neste momento, havia deixado de ser a casa da vovó, para se tornar um ambiente frio, escuro e vazio. Ela sempre conversando comigo, dizendo que achava o máximo que o Ricky e eu fôssemos tão parecidos fisicamente e dizia ainda que nossos filhos seria “loirinhos, loirinhos”.

Até que dia 31/10/2004 eu a visitei. Seus olhos arregalados, pedindo água – efeito da morfina. Eu vi minha avó, mas não a encontrei dentro daquele corpo magrinho. Eu sabia que era a última vez que a viria. E chorei.

No dia 01/01/2004 – a 21 dias do meu aniversário, ela se foi. Na mesma casa que antes abrigava minhas férias, meus nhoques e minhas bolachinhas. Na mesma casa onde ela dormia no sofá. O vazio tomou conta de mim e se haviam contratado um psicólogo para os filhos dela, esqueceram-se de mim, que de todos os netos, era a mais apegada.

Chorei inconsolavelmente, por saber que meu maior pavor havia se tornado realidade – ela não me veria casando. Tendo filhos. Tendo emprego. Ao menos me viu entrar na USP e conheceu o Ricky.

Me senti desolada, abandonada, sozinha e órfã. Ela era mais que avó.

Não fui ao seu velório, não quis vê-la morta. Eu já havia visto que sua essência havia ido embora, não precisava ver o corpo sem vida. Meu tio, quis abrir o caixão durante a cerimônia de cremação. Minha mãe vendo meu estado deplorável, pediu que não abrissem.

Há 8 anos eu não escuto sua voz, mas ainda sinto seu cheiro. Cheiro de vó, que passa por mim às vezes e ela me visita em sonhos. Ao menos uma vez por mês eu sonho com ela. Em sua fase mais linda  e mais importante – câncer free.

Tenho certeza que nos encontramos. Eu sinto ela perto de mim às vezes e isso me conforta.

Minha tia ainda mora na casa dela e mesmo depois deste tempo todo a casa ainda parece que vai recebê-la.

O que ela teve? Câncer de pâncreas. Ironias do destino, uma mulher que viveu nas regras das comidas e bem estar falecer de uma doença cuja incidência é maior em negros, homens e fumantes. Como dizem, coisas da vida. Em 3 meses ela deixou de ser minha avó para virar uma estrela.

vovo

 

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4 comentários em “18/30 – Foi duro

  1. A morte não é algo fácil de lidar, imagina quando é alguém tão querido por nós, não é mesmo? E câncer é uma doença mto triste, eu imagino o quando deve ter sido complicado, mas o com certeza sua vózinha está ao seu lado sempre e agora deve sorrir por saber que mesmo com o tempo o carinho continua presente. Bjo!

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  2. Carol, eu li teu post ontem rapidinho (enquanto marido tá no banho, eu dou uma visitada rápida nas amigas). E adivinhe? Sonhei com a minha avó. Ela morreu quando eu tinha 19 e tb foi a pior experiência que eu já vivi. Foi ela que me criou. Ainda lembro dela com tudo. Sonho sempre também. É uma pena que ela não me viu formada, nem casada. Pelo menos me viu começar a trabalhar. Acho que por isso, essa noite, no sonho, eu perguntei se ela queria um bisneto e ela respondeu que não. Tadinha. Ela achava que eu ainda tinha 19 anos e estava solteira. Rsrsrs Daí eu contei que ela já tinha alguns bisnetos e como tava a minha vida e ela ficou cheia de orgulho.
    Ahhhh!!! Tô chorando, que puxa!!!! Vou parar q daqui a pouco marido vem. Rsrs
    Saudades! Beijo!

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